segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Capitulo I- A Chance

Gustavo acorda no meio da madrugada com seu pescoço soando em bicas e seu colega de quarto, o também brasileiro, Manuel de Oliveira, fotografo da revista Mundo Informado, se vira de lado e cobre-se com um cobertor aos farrapos carcomidos por traças ou baratas. O quarto da pensão que estão tem paredes com o reboco caindo, o cheiro é estranho e a infiltração toma conta do seu lado da cama, faz com que o cheiro estranho se torne ainda mais incomodo. Gustavo é um jornalista que veio fazer uma matéria no Afeganistão para cobrir para a Mundo Informado, uma matéria sobre o 11 de setembro. É começo de outubro de 2001 e os Estados Unidos, unindo forças com aliados, começa uma investida maciça contra o Al Qaeda e o Talibã, força que mantém o governo Afegão. Cabul está na verdade servindo de fonte para vários repórteres do mundo todo, a procura de alguma informação sobre as ocorrências daqueles dias que estão entrando para a história mundial. E para Gustavo e seu companheiro, essa era a sua chance de fazer uma matéria grande para uma revista grande. Sempre o colocavam para cobrir eventos sociais e coisas assim que ele julgava sem nenhuma importância para sua carreira. Gustavo queria ser editor um dia e escrever um livro sobre a Ditadura Militar Brasileira sob a ótica de um garoto. Mas como repórter de segunda linha, ele sabia que suas chances de instabilidade seriam pequenas.

Em horas vagas trabalhava como web design para conseguir um dinheiro a mais e sua esposa era vendedora numa loja no centro de São Paulo. Sonhava em ter um filho, mas primeiro queria ficar instável financeiramente e terminar de pagar (ou pelo estar perto de terminar) as prestações do apartamento em Itaquera para poder providenciar um pequeno rebento. Então ele sentou na cama com o pescoço suado- Gustavo suava fácil- e catou alguma coisa no chão no meio do escuro. Tateou pelo chão frio até que seus dedos tocaram sua bolsa empoeirada. Correu pelos bolsos e tirou de dentro um maço de cigarros amassados. Há alguns meses prometera parar de fumar à sua esposa Amanda, mas a tensão de está em um país em guerra talvez tenha lhe dado a desculpa para fumar compulsivamente. “Eu posso morrer de câncer daqui a alguns anos ou dobrar uma esquina em Cabul e uma bomba me fazer em mil pedaços”, pensava ele enquanto batia com o indicador na abertura do maço contra o dedo sujo para que um cigarro descesse. Procurou o isqueiro dentro do mesmo bolso da sacola e acendeu o cigarro como quem acendesse o último de sua vida. Aproveitou o fogo bruxuleante do fogo azulado do isqueiro e tentou olhar as horas em seu relógio de pulseira de couro. Cerrou os olhos e levantou a vista. Conseguiu ver as horas e ainda faltava muito pra amanhecer. O barulho dos cães vadios era uma canção chata de um vizinho sem noção cantando de madrugada para duas vagabundas bêbadas.

A única coisa que via agora era a ponta do cigarro acender ao tragar e a ficar mais fraco ao soltar a fumaça pelas narinas quentes. Seu nariz cheirava a sangue, pois o ar seco e o calor causam essa disfunção; era comum ver pessoas sangrando pelo nariz, principalmente àqueles que não estavam acostumados. A certa altura tentou imaginar como seria daqui pra frente. Ele estava no meio de algo que era impossível de prever. Tenta manter o foco em coisas simples, mas era a primeira vez fora do seu país de origem cobrindo uma questão de extremo perigo. Logo lembrava-se de repórteres que participaram de conflitos em outros países e tiveram as suas vidas encurtadas por alguma infelicidade do destino.

Cabul tinha virado uma zona de guerra e o Talibã não ia deixar barato a entrada dos americanos e forças aliadas para derrubar seu regime. Na Guerra do Iraque anos antes era comum ver repórteres sendo feitos reféns para que os “inimigos” barganhassem algo. Ficava imaginando se ia acontecer com ele e como seria. Se iria urinar nas calças, chorando numa língua que eles não entenderiam e ele terminaria com o pescoço degolado jogado em algum lugar qualquer. Mas Gustavo ainda estava longe do conflito. Estava numa pequena pensão aos arredores de Quetta, cidade já próxima a fronteira afegã e que tinha seu aeroporto como possível base para ações no Afeganistão. Os paquistaneses não estavam vendo turistas americanos com bons olhos e isso gerava conflitos entre a população e qualquer pessoa de fora.

As ruas estavam cheias de refugiados que invadiam o Paquistão pelas fronteiras por áreas não vigiadas em busca de proteção. O Afeganistão estava em guerra e boa parte da população estava deixando o país em busca de segurança. Gustavo ia tentar entrar no Afeganistão para cobrir de perto e sentir o drama local. Queria escrever a matéria de sua vida e quem sabe até ganhar prêmios com ela. O que o incomodava era o fato de saber que podia entrar lá e sair ou em um pacote de plástico preto ou em vários pacotes de plástico preto, o que seria ainda mais aterrador. Então escorou-se no canto da cama junto a infiltração e fitou o vazio escuro voltando seus pensamentos para alguns dias antes de entrar nessa empreitada.

Um comentário:

Alhures disse...

Seguinte...
"Se iria urinar nas calças, chorando numa língua que eles não entenderiam e ele terminaria com o pescoço degolado jogado em algum lugar qualquer. "
Acho que um pouco mais formal seria se tu tirasse esse 'urinar nas calças'. Talvez tentar manter um texto mais "limpo" fosse legal, embora n queira dizer que n apresente coisas tais. Daí se tu quiser mesmo tirar ficaria:"Se iria chorar numa língua que eles não entenderiam e ele terminaria com o pescoço degolado jogado em algum lugar qualquer."
Cabe a vc!
:**